Para o Bombarral, Um Abraço do Miguel Gameiro




A noite de 29 de junho, no Bombarral, promete muito mais do que música, promete abraços. E para o efeito, a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Bombarral não poderia ter-se lembrado de ninguém melhor para nos dar ambos, em simultâneo. Miguel Gameiro, a voz que se tornou especial para o público português com os Pólo Norte, subirá ao palco do Teatro Eduardo Brazão, naquela que, todos esperamos, venha a ser uma noite memorável, a cereja no topo do bolo, para o fecho das comemorações do dia do concelho. Miguel Gameiro, que desde cedo mostrou interesse pela escrita e pela música, iniciou-se nesta última, como um dos fundadores da banda Pólo Norte, juntamente com António Villas-Boas, Rodrigo Ulrich, Francisco Aragão, Tó Rodrigues e Tiago Oliveira, e foi ele o elemento decisivo para a composição de alguns dos mais emblemáticos temas do grupo. 
“Dá-me Um Abraço”, é só um deles porque há outros. Muitos outros que todos nós aprendemos a cantarolar: “O Teu Nome” ou “Alquimia”, são também alguns dos preferidos. Mas não é só à música que Miguel Gameiro dedica o seu tempo. Para além de ter tirado um curso de cozinha, na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, passou também pelo instituto culinário Alain Ducasse, em Paris, e estagiou em alguns dos mais conceituados restaurantes portugueses. As iniciativas solidárias são outra das causas à qual se costuma dedicar sempre que pode. “Maria” é o novo trabalho discográfico de Miguel Gameiro, composto por duetos exclusivamente femininos, um álbum que celebra a Mulher.


Hoje, Miguel Gameiro é considerado um dos mais carismáticos e reconhecidos autores/cantores portugueses. Começo por perguntar, como nasceu a paixão pela música? 

Curiosamente tenho uma relação com a música, quase de casualidade. Quando miúdo, queria ser médico veterinário. Nunca quis ser músico, embora gostasse de cantar. Gostava de estar com os amigos e de fazer sempre alguma coisa diferente, às vezes minipeças de teatro, e cantar, era de facto algo de que eu gostava muito, mas eu via  aquilo apenas como algo para me divertir. Depois, comecei a cantar um ou outro fado por graça, nalgumas casas de fado, e nas festas da terra, e mais tarde o meu pai ofereceu-me uma guitarra. Foi a partir desse momento que eu descobri a capacidade para escrever. O que de facto despertou em mim a vontade de ser músico foi esta coisa de criar histórias e cantá-las. Nasce então o grupo. Criei os Pólo Norte, um bocadinho motivado pelo Festival da Canção. Não contei esta história muitas vezes, mas nessa altura já tinha duas ou três músicas feitas,  estava em casa quando vi o anúncio do Festival e decidi inteirar-me do regulamento. Então pensei: Agora preciso de uma banda. E a banda começa aí. 

Tornar os Pólo Norte conhecidos do grande público levou a um caminho difícil de trilhar? 

Não. Para ser sincero até foi fácil. Nós nunca tocámos muito em bares. Fizemos meia dúzia de concertos em bares e discotecas antes de lançarmos o disco. Não foi um caminho penoso. Tivemos a sorte de começarmos logo bem e de assinarmos um disco.

E foram, desde logo, bem recebidos pelo público? 

Sim, fomos logo bem recebidos pelo público. Tem ideia de que o público português é hoje mais exigente, difícil de satisfazer, ou a diversidade da oferta é que é tanta que acaba por criar uma grande dispersão? Hoje em dia há muita coisa e isso cria a ilusão de que é mais fácil chegar ao estrelato. Há programas de caça talentos, muitos concursos, toda a gente canta muito, mas cantar muito não é o suficiente para fazer uma carreira. Porque a seguir é preciso músicas. É preciso escrever, é preciso compor. 

E há falta de compositores? 

Acho que sim, há falta de compositores e há falta de letristas. Basta analisarmos um disco para percebermos que os nomes dos compositores se repetem. São sempre os mesmos. Não há muita gente a escrever e muito menos gente a escrever canções que fiquem e que marquem. Mas o Miguel conseguiu essa proeza… Tive sorte.

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E em março de 2017 saiu mais um disco brilhante a que deu o nome de “Maria”. Um disco com oito duetos, com vozes femininas bem conhecidas e acarinhadas pelo público. Este nome “Maria” foi para representar todas as mulheres portuguesas? 

Sim. Este disco é uma representação e uma celebração da mulher. O nome “Maria” para mim é dos nomes mais portugueses de todos. O segundo nome da minha mãe é Maria. E eu achei que este nome “Maria” fazia todo o sentido porque este disco de facto tem um tema. Não é apenas um disco de canções. 

Como é que foi o processo de seleção destas vozes que acabam por simbolizar todas as Marias, todas as mulheres? 

Todas elas são de alguma maneira, especiais para mim. São mulheres com quem eu já trabalhei ou com quem eu gostava de trabalhar. Todas elas fizeram sentido para mim, apesar de todas diferentes e todas a fazer música, até, de estilos diferentes. 

Qual foi o dueto que fez, que foi para si mais marcante? 

Destaco talvez o dueto com a Mariza, sem tirar o mérito de todas as outras. Cantar com a Mariza, foi talvez um bocadinho diferente, porque com ela eu já tinha uma ligação mais forte que vinha de outros momentos. 

Tem noção de que o facto de tanta gente ter namorado ao som da sua música pode torná-lo de alguma maneira responsável pelo aumento da natalidade em Portugal?

 É importante! (risos) Tenho algumas histórias dessas. Pessoas que namoraram a ouvir a minha música, outras que casaram a ouvir a minha música e todos nós em todas as nossas profissões (a música é mais outra profissão), todos nós gostamos de ser valorizados e reconhecidos. Aqui a diferença é a que música tem um impacto sobre as pessoas com uma profundidade um bocadinho diferente. A música tem a capacidade, não apenas de nos emocionar, mas de nos fazer refletir, recordar. Costumo dizer que a música não salva vidas, a medicina salva vidas, a música não, mas ajuda muito. Especialmente nessa parte dos afetos. 

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O Miguel tem também outras paixões. A cozinha, por exemplo. Para além de ser um músico talentoso é também um Chef de mão cheia. O que é mais fácil para si? Criar uma nova receita ou uma nova música? 

As duas coisas são difíceis. (risos) E distintas! Mas também têm coisa semelhantes, como a partilha, por exemplo. Embora para públicos diferentes, um número de público mais reduzido, mas relativamente à criação de uma coisa ou outra, tenho muito mais músicas do que pratos criados. O que eu gosto mesmo é de pegar na cozinha tradicional e tentar recriar essas receitas da melhor maneira possível. Criar é o que lhe dá sentido aos dias? Sim, sim, a minha vida sem isso é vazia. Se eu não pudesse criar e partilhar seria uma pessoa muito triste. Costumo dizer que sou a pessoa mais feliz do mundo porque não trabalho. Ou seja, trabalho, mas como faço aquilo que me dá sentido à vida, é um prazer trabalhar. 

E sente mais prazer a cozinhar ou a comer? 

Essa pergunta é que é mais difícil! (risos). Sinto o mesmo prazer nas duas coisas. A minha avó cozinhava muito bem e ensinou-me muita coisa. A minha mãe cozinha muito bem. Eu quis depois começar a perceber como é que se faziam as coisas, a música deu-me também a possibilidade de viajar muito por todo o país e em cada lugar que parávamos para comer eu ia sempre à cozinha. Para tentar perceber. Não me basta comer, tenho que ir sempre chatear as pessoas às cozinhas (risos). Depois começava a fazer perguntas sobre as receitas. Decidi então aprender mais. O meu prazer de estar à mesa, também é obviamente muito grande.

Costuma cozinhar e ouvir música aos mesmo tempo? 

Costumo cozinhar e cantarolar. Ouvir música, estou quase sempre. 

E qual é o seu prato favorito? 

Para comer? Há dois que eu gosto muito. Uma feijoada transmontana e arroz de cabidela. Para fazer também. Estes são os que eu gosto mais de fazer. 

E se fosse obrigado a escolher entre a música e a cozinha, o que é que escolhia? 

Ui…isso é difícil, porque eu não gostaria de ter que escolher entre uma e outra. (risos) Mas se fosse mesmo obrigado, escolhia a música. Não cozinhava, mas comia e continuava a desfrutar de uma parte do prazer. 

Podemos dizer que o Miguel é o artista completo? Aquele que cria a música que nos alimenta a alma e a comida que nos alimenta o corpo? 

A combinação perfeita? O homem que é capaz de tocar guitarra para uma mulher e a seguir ir para a cozinha fazer um bom jantar? Talvez. (risos)

Quais são as suas referências musicais? 

Sobretudo, música portuguesa. Xutos e Pontapés, Heróis do Mar, GNR, entre outros. Mas hoje em dia, o meu gosto musical é muito eclético. 

E as suas vivências também o inspiram a escrever, certo? Não apenas o que ouve, mas também o que vive. Já se inspirou alguma vez em situações por si vividas, para criar/compor música e letra? 

Sim, grande parte das letras que eu escrevi são um pouco autobiográficas. Nós podemos escrever sobre algo que não conhecemos, mas escrever sobre o que conhecemos é muito mais fácil. Mas também gosto muito de me colocar no papel das outras pessoas e criar uma história a partir daí. 

É o caso do tema “Dá-me um Abraço”?

 A “Dá-me um Abraço”, nasceu a partir de um filme que vi e que terminava com um abraço, com as pessoas a abraçarem-se todas em silêncio e achei aquilo muito forte. Comecei a pensar sobre o gesto em si, e na importância que ele tem, sobretudo, devido à dificuldade que nós temos em abraçar. Mais facilmente beijamos do que abraçamos. Não abraçamos tanto como deveríamos abraçar. Nós portugueses somos um bocadinho rígidos, não quer dizer que não sejamos afetuosos, mas somos contidos e reservados. Um abraço pressupõe uma entrega maior, se o compararmos ao beijo? Sim, um abraço é a entrega total. Um peito contra outro, um coração contra outro. Acho que um abraço é muito mais do que um beijo. Tem uma profundidade muito grande. 

Vai trazer essa canção no próximo dia 29 de junho ao Teatro Eduardo Brazão? 

Sim, vou. Esse espetáculo será bastante intimista, num registo acústico. A sala do Teatro Eduardo Brazão é uma sala especial e proporciona essa proximidade. Aproveito para dizer que sei o quanto a Caixa Agrícola é importante para o Bombarral e o quanto esta instituição dinamiza culturalmente o Bombarral. Ainda bem que o faz. Só podemos estar gratos porque é de extrema importância termos estas entidades que se preocupam com a cultura. Um agradecimento também à Caixa Agrícola de Bombarral, pelo concerto.





Texto: Ana Cristina Pinto
Fotografia: Rui Viola/ Internet
Artigo publicado no Jornal Região Oeste
www.facebook.com/JRO-Jornal-Região-Oeste




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